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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

bola oito


seria só mais uma noite qualquer
com um jogo de bilhar em cima do sono
e o copo de álcool-tudo no lugar correto

mas ficou tudo bagunçado
cada par de coisas fora do lugar
e o giz, que riscava apenas um corte aberto,
desenhou o teu nome no ar

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

com ela

calam-se as bocas
vão-se as línguas
descem as mãos
o mundo se cala
e dentro do quarto
a vida acontece

segunda-feira, 30 de maio de 2011

eu visto vermelho

eu visto vermelho
porque vermelho
é a minha cor

não é azul
nem branco
nem rosa

minha cor é vermelho!

não é cor de sangue
nem cor de batom
não é cor de guerra
nem cor de terra

minha cor é vermelho!

não é cinza
nem cigarro
nem sexo
nem trégua
nem régua
nem


guerra

minha cor é vermelho!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

quindim

hoje já é amanhã
e ontem já é anteontem
o vinho que eu bebo
a música que ouço
a fumaça que trago
a droga que tomo
o cheiro que arde
a cor que apela
o olho que brilha
a boca que mente
as pernas que sentem
o calor da cidade
cidade linda, cidade bela
cidade maravilhosa
o mar, o mar, o mar
ah, o mar!
o som que invade a cabeça
a procura que em mim tropeça
e eu achei você em um bar, menina
bebendo aquela mesma bebida
ontem à noite, ontem à noite
quindim, quindim, que será, sem tu, de mim?
quindim, quindim, até quando será assim?

-

Glory Box, Portishead

Para P.C.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Nota de Esclarecimento aos Leitores

Recebi vários e-mails de pessoas perguntando o motivo do blog estar pausado.
Eu estou sem tempo para me dedicar ao mesmo, pois a ONG que faço parte, onde atuo como palhaço de hospital e de picadeiro, está passando por uma fase de vários projetos a serem concretizados, precisando assim de toda a força de trabalho que tiver disponível. Fora que também tem a universidade, onde brinco de estudante de engenharia.
Outra coisa que gostaria de esclarecer é que 95% dos eu-líricos dos poemas dessa temporada 2009/2010 são TOTALMENTE FICTÍCIOS. Para depois ninguém estar achando que eu sou um maníaco psicopata que se apaixona pela primeira garota bonita que aparece em minha frente. Os eu-líricos falam o que eu imaginaria que poderia ser dito às pessoas que inspiraram os poemas. Poemas como "Maria" e "Sweetpepper" têm eu-lírico fictício.
Espero ter esclarecido tudo. Como disse antes, no inverno estaremos de volta com, ao menos, uma postagem semanal. Uma parceria com Ariana Fernandes, grande amiga minha, está sendo estudada. Assim, até a próxima nota (ou poema!).

Abraços.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

valsinha

danço o parto da tua boca
que parte meu olho em teu colo
que mente um tango feliz
da memória que contas e diz

que pareço com gente qualquer
menestrel da valsinha e balé
maestro da serra de pé
ferreiro da luz do luar

hora que vem como autor
abrir as portas, ser delator
da própria vaidade
que a verdade esconde no ato

de te admirar com corpo e mente
ser palhaço, engenheiro e, de fato
o sorriso que te diz "tente"

sábado, 20 de março de 2010

salvador

não tem palavra que traduza a saudade.
poderia escrever todo um dicionário
e pôr fim a todo esse itinerário
pra evitar que me ataque minha vaidade

mas hoje bateu no peito um defeito
que carrego há muito no coração
que me deixa absorto em mim mesmo
que leva o ar do meu pulmão

e de sorriso e choro se fez esse poema
no meio duma palava besta e d'um dilema
de uma declaração da falta que o outro faz
como se o céu tivesse se escondido na noite

mas lembranças de fins de tarde e do primeiro encontro
me vem à mente e me deixam tonto
numa lágrima que cai do teu sorriso
declaro em saudade meu amor por você

do primeiro natal

Dia cansativo!
Trabalhei mais do que devia, mal almocei e quando chego em casa tem minhas cuecas pra lavar (sim, eu lavo minhas cuecas). Mamãe sempre diz que se colocar na máquina de lavar estraga. Mas isso se deve ao fato de termos ido dormir tarde ontem montando a árvore de Natal. Foi até legal, só quebrei uma bola, mas quase que a gente tem de ir pro hospital: o Joaquim pegou aqueles cordões cheios de doces de mentira e danou-se pro quarto. Ficamos montando a árvore e pensamos que tava tudo bem, que ele tinha ido pro quarto dormir, mas quando meu bem chega lá tá Joaquim comendo os doces de mentira e quase se engasgando com uma bengala falsa! Em uma manobra quase de ninjutsu ela conseguiu erguer o menino, tirar a bengalinha dele e o levar em dois segundos pra tomar água. Adoro mulheres com mega instinto maternal! Depois disso, fui ler o restinho do jornal do dia que faltava enquando ela o ajeitava e o punha pra dormir.
Baaah, tudo bem que meu jeito romântico já ficou de lado há muito tempo, mas eu acho tão bonitinho ela cuidando dele. Parece aquelas velhinhas que tem aquele montão de plantas e cuida de cada uma como se fosse um pedaço de si, sabem? E o jeito que ela amarra o cabelo ainda me fascina. Droga, porque gostar tanto de coques?
Bem, agora vamos fazer jus ao título dessa postagem, não é?
Ainda era o primeiro ano da gente em Gramado. Tava tudo ótimo! Eu havia sido chamado cerca de uma semana após o resultado do concurso e ela tentou emprego em algumas empresas. Depois de deixar currículo até em padaria (conseguir um emprego tinha se tornado uma questão de honra!) ela finalmente foi chamada para seu primeiro emprego (e como nutricionista, não como padeira). O Hospital Arcanjo São Miguel, que atende a população de Gramado e Canela, se interessou pelo currículo dela e a contratou. Deus sabe a felicidade que ela ficou. Foi tão bom, tão bom, mas tão bom, que fomos dormir 2 horas mais tarde do que estávamos acostumados (já descontando a outra hora que tinha se tornado rotina três vezes na semana). Depois disso, as coisas realmente melhoraram por aqui. Ela pôde, então, comprar as coisas caras de que tanto gostava, e eu agora tinha um dinheirinho sobrando todo fim do mês pra guardar na poupança.
A gente até tava planejando visitar nossos pais no Natal desse ano, mas nem deu. Decidimos com o dinheiro dar entrada na compra de um apartamento, já que iríamos passar carnaval com eles.
Mas bem, nesse primeiro dia de Natal eu acordei com o pé esquerdo. Podia jurar que ouvi alguma coisa caindo e quebrando na cozinha, mas nem liguei, ainda estava no estado sonho/realidade e não era nem 7 horas da manhã. Meu bem trabalhava mais cedo, então acordava mais cedo. Meu trabalho era de 6 horas diárias, distribuídas como eu quisesse, entre as 8 e 18. Optei por trabalhar das 10 as 16, ficava num horário melhor. Já ela trabalha 8 horas por dia, mesmo não tendo o que fazer. "Passei o dia lendo revista hoje. Sabia que a Capricho é até legalzinha?" disse uma vez. Normalmente eu fico de mau humor quando acordo, nesse dia eu acordei com um puta mau humor e, pra completar, tinha a louça suja de ontem pra lavar e a do café da manhã, que ela sempre deixava pra que eu lavasse (ESSA é a parte ruim do meu horário de trabalho). Terminei de lavar a louça e fui tomar banho. Quando abro o chuveiro, sem água. Sorte minha, tava tão aéreo que percebi que havia tentado tomar banho com os óculos no rosto, que tenho de usar pra tudo, até pra lavar louça. Pra completar, a caixa d'água tava quebrada, então quando faltava água, cada um que se virasse. Tudo bem, normal faltar água e tomar banho naquele frio com água da caixa era quase pedir pra morrer de hipotermia. Minha única opção foi voltar aos velhos tempos de ensino fundamental: se não quer tomar banho, molhe a cabeça e ponha bastante perfume, tudo resolvido! Fui até a geladeira rindo da minha própria infantilidade, ignorei o bilhete que ela tinha deixado - que normalmente era um "bom dia" ou "bom trabalho" seguido por um apelido carinhoso - peguei a jarra verde, onde colocávamos água gelada, fui até a pia da cozinha (como fazia quando criança), me enverguei de modo que não molhasse a roupa de dormir e despejei com tudo! Primeiro eu pensei "não acredito que estou fazendo isso de novo", mas quando vi o líquido amarelo e preguento escorrendo pelos meus cabelos e enfestando a cozinha com cheiro de manga, foi o estopim pra um ataque de nervos!
10 minutos depois estava eu lendo o bilhete que ela tinha deixado:

"a jarra do suco quebrou e pus o suco na jarra de água

p.s.: liguei pro mercadinho e pedi água mineral, o filtro está seco.

bom dia, te amo!"

Assim que termino de ler, toca a campainha. O Zé era cara legal, super gente fina, comprávamos água a ele desde que havíamos nos mudado, só que tinham colocado um pessoal novo pra fazer as entregas. Abri a porta com meu novo perfume Ekos Manga e com um sorriso elegante e forçado.

- Bom dia! disse o jovem, que devia ter seus 20 anos.
- Bom dia, como vai? Pode entrar. A água fica ali em cima da mesa mesmo.

Podia jurar que vi uma cara de riso quando ele saiu, tentando ser sério e esboçando um "obrigado", e o pior é que eu não tiro a razão dele.

Liguei pro trabalho e disse que estava doente, coisa que com certeza era melhor do que ir trabalhar sem tomar banho, ou melhor, tendo tomado um banho de suco de manga. Como era dia 24 de Dezembro e eu só teria de trabalhar meio expediente, nem houve muito problema. A água veio chegar lá pro meio dia mas, pra minha surpresa, meu bem chegou antes disso! Dissera que o pessoal de lá havia liberado-a mais cedo.
Ela passou o resto da semana tirando onda com a minha cara por conta do suco, mas foi até divertido! O bom disso tudo é que eu posso dar um tiro no pé que ela me mostra o lado bom. Pena que a única coisa boa do suco foi a recompensa na noite de natal, mas isso não vem ao caso, talvez algum menor esteja lendo essas palavras!
Compramos um peru pra fazer nossa ceia e pedimos pizza! Assistimos um bom filme de Natal e formos dormir. Passamos horas lembrando de como tínhamos nos conhecido, como tinha sido meu primeiro Natal na casa dela e sobre o presente horrível que ela tinha me dado. Tudo bem que ela mesma tinha feito e tinha um valor sentimental enorme, mas que era feio, era. Mas isso é tema pra outra postagem, estou morrendo de sono e amanhã terei de trabalhar às 8 horas, estamos no meio de uma obra!

quinta-feira, 18 de março de 2010

da fuga

Fugimos quando havíamos acabado de nos formar!
Era um dia de sol, dia de verão. A música do dia era "Conversa de Botas Batidas", de Los Hermanos.
Se não fugíssemos, jamais teria dado certo. Vocês sabem, não é? Eu vindo de família humilde, ela cheia da grana...
Ninguém quer um pé rapado. A gente namorava há algum tempo, fazia um ano e 4 meses. Ainda com meu diploma, os pais dela não queriam! E olhem que tive uma das melhores médias no curso, 9.2!
Fugimos pro Rio Grande do Sul. Havia bastante concurso na minha área, as chances de que eu passasse pra algum era bastante grande. Ela iria tentar algum concurso também, haviam muitas possibilidades pra nós dois. Éramos bons no que fazíamos. A cidade escolhida foi Gramado. Era calma, totalmente linda e fazia friiiio! Dava pra dormir agarradinho toda noite, até mesmo com ela de tpm, acredita? Meu sonho de consumo desde os 12 anos!
Depois da fuga e de algumas horas de viagem, chegamos e ligamos para nossos pais. O pai dela quase tem um troço. O pessoal lá de casa já estava avisado, mas proibi minha mãe de contar algo até que eu estivesse lá. O escândalo foi grande, o pai dela queria ir buscá-la na mesma hora, perguntando onde ela estaria. Para minha surpresa, quando conversamos mais tarde no mesmo dia, ela havia me dito que conversou com a mãe. Poxa,a gente queria viver junto e ser feliz, só isso! Estávamos com mais de 23 anos e precisávamos de expectativas.
Eu tinha pouco menos de seis mil reais na conta, dinheiro que tinha juntado das bolsas da universidade, monitoria e afins. Juntos, devíamos ter uns dez mil, dinheiro suficiente pra passar um ano pagando um aluguel de R$500,00 e tentar se manter até conseguir emprego. Se não conseguíssemos emprego em um ano, voltaríamos pra casa com a cabeça baixa e sem direito de reclamar. Óbvio que, depois de tanta confusão, definitivamente não era isso que queríamos! A sorte grande apareceu depois de três meses! Concurso da prefeitura da cidade: 10 vagas pra minha área (Engenharia Civil) e 5 pra dela (Nutrição). A taxado concurso era barata, mas o salário dos dois, se passassem, daria exatamente R$6.550,23, fora benefícios como alimentação, transporte e afins. Ainda que só um passasse, estaria tudo ótimo! Se ela passasse e eu não, óbvio que eu não ia ficar sendo sustentando, por isso acho que nunca estudei tanto na minha vida como naqueles dois meses que precederam o concurso. Terminou que só eu passei, ela ficou na lista de espera. Quando ligamos para dar a notícia aos nossos pais, o suspiro de alívio deles foi gigante. Depois da prova ainda passei mal, fiquei três dias no soro. Bem que quando começamos a namorar meus amigos tiravam onda dizendo que meu sogro mexia com macumba. Foi só o começo da nossa vida. Nossos planos na época eram ter três filhos, Joaquim, Alice e Anastácia, ter um bom carro, uma boa casa e poder viajar bastante! Acho que conseguimos realizar quase tudo até agora.

Amanhã escrevo mais. Agora tenho de ir, ela e o Joaquim estão me chamando pra montar a árvore de Natal!

terça-feira, 16 de março de 2010

Sem Título

"Brincadeiras bobas, e palavras casuais
- Vem, a vista lá de cima é mais bonita!
Nem chegaram até lá em cima,
Os pés já se encontram meio que sem querer,
e os pêlos do braço dele fazem aquela leve cócega ao encontrar os dela.
o siamês que se enrosca em suas pernas começa a irritar
-Vem!
Ele a toma pela mão e a guia até o quarto.
Transboradaram.
Talvez porque no escuro a nudez é menos crua.
e num repente,
os olhos quase sempre mudos esparramaram poesia pelo chão.


Nomeei-lhe assim
Desta coisa sem nome
Pois não tinha título algum
Que pudesse lhe dar
Rabisquei-lhe uns traços
E lhe fiz de balbucias em verbos
Uns versos sem honras
Sem título ou mérito
Só pra não perder o hábito
De me desfazer
Em letras e pontos e riscos"

Ariana Fernandes

sábado, 13 de março de 2010

sábado (ou poeminha pessoal do dia de hoje)

dia dos amigos
das heineken's não bebidas
do doritos dividido
da tiração de onda
dia de descobertas!

descoberta do coração
descoberta do fígado
descoberta do ar do pulmão

dia de liberdade
libertar-se da vaidade
e de todas as más vontades
dia de fazer o que se quer

e quando for meio dia
do outro lado da vida
é dia de ser noite
e a noite foi feita pra ser vivida!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Continho

Eu me lembro bem desse episódio!
Aconteceu lá por volta de 1991, ano de grandes descobertas. Ouvia-se os primeiros rumores do que hoje é a internet e a guerra fria estava esfriando. Faltava exatamente um dia para o meu aniversário de 16 anos. Nunca gostei de comemorar aniversário. Minha mãe insistia em fazer um bolo para os amigos mais próximos ou um almoço, mas eu sempre dispensava a idéia, nunca fui muito carismático. Era noite já, tinha de ir cortar o cabelo. Desde criança corto o cabelo no mesmo lugar, já naquela época eu era um dos clientes mais antigos, segundo o 'Gordo', o cabeleireiro. De gordo ele não tinha nada, era um rapagote forte e dos olhos azuis, sempre achei que ele poderia ser modelo ou algo assim, uma pessoa atípica para uma profissão como essa. Mas acho que ele tirava um bom dinheiro, pelo menos o suficiente para ir aos bares e conversar coisas impróprias para menores. Havia mais duas pessoas na minha frente. O Gordo tinha colocado uns docinhos do tipo 'nego bom' para os fregueses, o que me rendeu o que mastigar enquanto esperava. Os doces tinham o gosto da mercearia da minha avó.
Os dois que estavam à minha frente na fila deviam ter seus 40 anos. Um deles eu não vi direito, o outro trabalhava numa loja de pneus, o nome estava grudado na farda da empresa. Era relativamente jovem para a idade. Na televisão passava uma novela qualquer, nunca tive saco pra televisão. Fora que os programas naquela época eram um saco. Quando menos espero, inicia-se um diálogo:

- Rapaz, mulher é bicho complicado. Passei 15 anos casado com uma, tive três filhos com ela, me separei por que me apaixonei por outra. Com essa outra passei 9 anos da minha vida, até que com a mudança de governo ela teve de voltar pra Garanhuns. Faz seis meses que tô com outra, que me ama e me quer bem, mas eu quero ela não, sabe?
E a outra lá descobriu e mandou uma carta dizendo que chega essa semana.

Havia algo no coração dele que realmente mostrava ser sincero o sentimento. E a julgar pelo fato de ser um fim de mês beirando um fim de semana, ou ele estava cortando o cabelo pra viajar, o que era improvável levando em consideração sua cara de cansado, ou ele estava se preparando pra algum acontecimento pessoal. Das duas, a última era a correta. Eu não tinha a mínima experiência comparado a dois casamentos. Pude só ouvi-lo. Eu disse a ele que estava num impasse parecido, mas nada tão importante quanto a situação dele. Foi legal vê-lo saindo com o cabelo cortado e uma esperança. Ele realmente gostava dela. "Faça o que for certo pra você" foi a única coisa que consegui dizer.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Hoje, não.

depois que juntei teu corpo ao meu
e decidi por ti mudar
antes mesmo do amor acontecer
você sacrificou o sentimento
e em tão pouco tempo
o viu e deixou morrer

depois de tanto suor
tanto corpo e nenhum dó
ouviste o que os outros disseram
e ainda sabendo que eles
por nós nada fizeram
quiseste moldar-nos em pó

fizeste ao redor teu um forte
e uma faca desceu como em corte
sobre o meu frágil peito tão nu

sangrou meu amor e a dor
transformou-se em repulsa e desejo
de não mais te pedir nem um beijo
pra que comas de sangue este angu

por ti fiz tudo que podia
transformei minha noite em dia
pra depois coração não pesar

me deixaste um vazio na boca
foste embora sozinha e mouca
te puseste em teu quarto a chorar

tentei novamente te ter
mas você foi quem escolheu morrer
pra que de mim não pudesses gostar

teu templo fez tua cabeça
subiste em escadas, mas deixa
com isso não vou me importar

e eu que te amei como um rio
vi pouco espaço, muito vazio
e hoje não quero te ter

tu te reveste do desconhecido
esquece o que deixou comigo
p'reu fazer o que bem entender

não sofro por ti nunca mais
sem ti encontrei minha paz
que há tanto buscava e sei

em mim te matei bem no fundo
pois não prestas pro meu coração
te pus bem de lado e calado
vou cantando uma nova canção.

II

você quis me matar
tirou meu coração do lugar
o pôs em uma redoma de vidro
e jogou fora tudo aquilo
que disse-me gostar

estava feliz comigo
mas meu mundo era muito pesado
fardo grande de ser carregado
pois tuas crenças te afastaram de mim

eu que quis te proteger
fiquei realmente sem entender
o que estava acontecendo

se havia feito tudo perfeito
se tentava não expor meus defeitos
vi que tudo estava morrendo

não posso lutar contra sua vontade
ainda que seja mera vaidade
tentar jogar fora tudo assim
se um dia eu te dei pra mim

mas é assim mesmo
seu tempo vai acabar
enquanto tentas me matar
vou vivendo a vida como sempre

não tenho esperanças de voltar
muito menos estou doente
tenho vontade
mas estou calmo
estou em paz.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

epifania I (você vai)

e então você vai voltar
entrar pela porta de sempre
me fazer uma ligação de segundos
me chamando pra qualquer lugar em comum

então eu vou dizer que não dá mais
mas quero marcar uma hora
pra passar na tua casa e deixar
o que eu não quero mais guardar

vou levar seus presentes
suas memórias
tudo que um dia
foi parte da nossa história

vou te dizer que aguente firme
que outro um dia vai vir
e quem sabe fazer o que não consegui?

e então você vai se questionar o porquê
se fazer de forte
pra chorar quando eu por os pés na rua
e você não me ver mais
voltando da calçada arrependido

vai ler novamente minhas cartas
e talvez até converse com sua mãe
porque vai precisar de um ombro como consolo

vai pensar que é o fim do mundo
e vai querer me ligar
ou falar comigo em hora qualquer
mas vou pedir pra dizerem que não estou

porque quando eu estava
você não se importava

o tempo pode vir a te enrijecer
mas lá na frente você vai ver
que tudo não passou de uma fase
como você sempre diz

e então nos bateremos na rua
e trocaremos olhares desconfiados
mas não nos falaremos
assim fica melhor e mais cômodo
para os dois

a vida vai seguir diferente pra cada
suas lágrimas irão secar como pedras
e talvez eu já esteja com outra
que pena que foi assim
mas você me perdeu pra mim.

domingo, 10 de janeiro de 2010

votos de domingo

resposta de mensagem recebida em forma de poesia.

-

gostaria de desatar os nós
e distribuir meu amor nesse domingo
mas há dor guardada aqui dentro
de forma que nem mesmo o mais forte vento
pudesse me fazer sorrir

ao contrário disto
rasga minha boca e, aflito
caio na cama e desabo

amor é caixão fundo
pouco espaço pra muito vazio
hoje estou em fogo que não arde:
me mata de frio

até a princesa voltar
meu cavalo não vai participar de nenhuma guerra
porque hoje temo apenas uma única fera:
aquilo que chamei de meu

todavia, contudo
que este domingo tenha sido pra você
um dos mais lindos do mundo

agradeço de coração

Amor,

Augusto.

seu lugar não é aqui

ponha-se em seu lugar
o barco chegou
o mundo girou
não quero pra ti mais voltar

no jogo que aceitei jogar
não disse-me a regra que havia
de entrar e sair sem levar
aquilo que um dia tive por minha

deixaste minh'alma à mercê
fiz terra do pó pra te ver
e enquanto desato este nó
aprendo a viver sem você

com tanto cavalo de tróia
maior do que qualquer um da história
assim meu exército eu recolho
porque essa guerra não vou mais travar

na trava da língua que falas
não vou aceitar mais palavras
que expelem um desejo tão vil
de ver-me no abismo que ninguém mais viu

deixo-te esta mensagem
pra ler em época de estiagem
e não mande resposta pra mim
não quero mais você, querubim

no mais, espero a tua volta
contida em dias de revolta
que não vão mais vingar
enquanto meu coração
você não tocar.

sábado, 9 de janeiro de 2010

um poema para ele

nem parece que o castelo que eu construí
com meu sangue e suor
sorriu pra mim e desabou

fiz terra do pó
pra te abrigar comigo
fiz do meu sangue teu abrigo
e na minha casa você me deixou

não culpo a mim pelo que há de vir
muito menos quero ver você sorrir
no cais onde desenhei tua nau
o vento não bate nem canta
e as velas não voam mais no mar

ainda assim, queria pedir desculpas
por qualquer coisa banal
que meu ímpeto tenha feito
por qualquer coisa que eu tenha desfeito

mas tudo ficou certo
cada peça em seu lugar
nunca foi nem vai ser:
você não nasceu pra mim
nem eu para você.

-

Baseada na história de um grande mestre.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pétala

"Você se parece com o selinho roubado,
meio sem graça, todo mal amanhado.
E seu silêncio é mais que silêncio,
como teus olhos castanhos,
que trazem a tempestade que eu aponto,
como a chamada não atendida do teu número.

E eu disse que não chegaria mais perto,
entretanto, porém, decerto, deserto ficaria aqui
se não pudesse eu, ao menos uma vez por semana,
ver tua boca sorrir.

E sei que entre a fita e o azul,
aquela é a escolhida,
por saber ser a minha preferida,
de leste a oeste, de norte a sul.

E quero saber o que por ti não faço,
paro a aula de história, me visto de palhaço,
te aperreio tanto, fingindo ser o mais chato,
só pra poder, sem remorso ou mal-dizer,
deitar no calor do teu abraço.

Se não falo, é pra tentar ou não desistir,
sou inconsequente, pra muita coisa demente,
mas penso, com corpo e mente,
como pode, tão linda, simplesmente existir?"

Há muito tempo atrás, para Cheyla Salvador.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quando eu me tornei mais frio

eu me tornei mais frio
[ - quando a noite e suas estrelas caiu
eu me tornei mais frio
[ -quando o inverno chegou
quando a música não tocou
quando o poeta não escreveu
quando você não falou
quando você me deixou

quando eu me tornei mais frio
[ - as pessoas não machucavam mais
a dor não doía mais
a importância não era mais dada
não exisita mais os outros

quando eu me tornei mais frio
[ - o sol se congelou
o fogo não ardia
o palhaço não brincava
a música era triste

quando eu me tornei mais frio
[ - nunca mais me apaixonei
nunca mais me machuquei

quando eu me tornei mais frio
eu me tornei eu.